terça-feira, agosto 01, 2006

O Inferno do conhecimento

A alegoria da caverna, do filósofo Platão, deve ser o conceito filosófico mais popular e difundido, mesmo entre aqueles que nunca leram nenhum livro de filosofia. A alegoria mostra pessoas presas no interior de uma caverna, que viam apenas sombras e escutavam apenas ecos e consideravam aquilo a sua realidade, mas um deles se liberta, sai da caverna e vê realmente qual é a realidade Nessa alegoria, Platão tenta demonstrar a diferença entre aqueles que viam apenas ilusões daqueles que realmente enxergavam a realidade dentro de sua filosofia, na qual existia o mundo material e o mundo ideal.

Claro que tal alegoria pode ser aplicada a qualquer situação na qual os indivíduos têm sua visão de realidade deturpada e simples. As sombras projetadas na parede da caverna podem ser qualquer coisa, como crenças religiosas, idealismos políticos, aspectos morais de comportamento.

Mas seria aquele que se aventura fora da caverna mais feliz, mais realizado do que aqueles que se mantém prisioneiros de suas ilusões? Quando o jovem, em sua arrogância, vislumbra um mísero raio de luz daquilo que julga ser realmente a verdade, se vangloria em relação aos seus iguais que ainda estão agarrados a seus valores “ilusórios”.

Só que, no frigir dos ovos, esse suposto conhecimento que destaca o explorador da caverna de seus pares ainda acorrentados telespectadores do teatro das sombras traria felicidade ao mesmo?

Acho pouco provável. Despegar-se de certas “ilusões” parece só trazer uma efêmera e breve satisfação e uma ilusão de superioridade intelectual. Renunciar a crenças metafísicas tem apenas como bônus a perda de todo e qualquer conforto e alento psicológico que tais crenças oferecem a seus seguidores.

Mas é claro que o jovem perscrutador da verdade sentirá que tem um ouro de tolo em mãos mais cedo ou mais tarde.

O que alguém que sabe “a verdade” tem? Na dor da perda de um ente querido, ele pode sinceramente acreditar que este ainda exista em um lugar melhor, em um paraíso póstumo? E que você um dia ainda se encontrará com ele? Infelizmente, para aqueles que deliberadamente renunciaram a suas ilusões, tal consolo não existe, e o que resta é suportar a dor da perda em toda a sua plenitude.

E a perspectiva da própria morte? Haveria o consolo de se acreditar que sua essência sobreviverá ao fim de seu corpo físico? Bem, os que sabem “a verdade” têm na somatória dos fatos o triste veredicto de que é pouco provável que algo vagamente parecido com alma exista e venha a sobreviver ao fim de sua existência física. Mesmo que isso seja um fato, o que é preferível? Passar a vida temendo a morte porque ela é realmente o fim de tudo ou acreditar na possibilidade de que seu eu é eterno, mesmo que essa crença seja ilusória?

Estes são apenas exemplos mais extremos. A incapacidade de se iludir, de se deixar levar pelas aparências, a perda da ingenuidade faz o explorador do mundo fora da caverna perceber que a natureza do homem não é necessariamente boa, que valores de justiça, honra, idealismo e outras formas de ilusão são falsas e efêmeras. Você perceberá que a sua luta inglória e diuturna não serve para nada, realmente. Trabalhar de sol a sol apenas consumirá mais rapidamente a sua saúde, resumindo sua existência, e nada restará de seu trabalho quando seus ossos estuiverem adubando o solo. A somatória desse aprendizado resulta apenas em uma personalidade amarga e sem fé no homem. E não haverá um retrato de Dorian Gray que suportará essas agruras em seu lugar. O amargor de sua personalidade se refletirá em seu rosto.

No balançar dos fatos, será que realmente vale a pena sair da caverna? Infelizmente não é um processo reversível, e a partir do momento que a luz do sol é vista pelo explorador, não há mais volta ao estado anterior de ignorância. Sob esse ponto de vista, a ignorância é uma bênção, um visto de permanência em um paraíso ao qual os exploradores renunciaram de livre e espontânea vontade.

Por isso, um conselho: não renunciem a suas crenças, a sua fé, a suas verdades, a suas sombras na caverna. Permaneçam nela e sejam felizes.

O misantropo


A boca, às vezes, o louvor escapa
E o pranto aos olhos; mas louvor e pranto
Mentem: tapa o louvor a inveja, enquanto
O pranto a vesga hipocrisia tapa.

Do louvor, com que espanto, sob a capa
Vejo tanta dobrez, ludíbrio tanto!
E o pranto em olhos vejo, com que espanto,
Que escarnecem dos mais, rindo à socapa!

Porque, desde que esse ódio atroz me veio,
Só traições vejo em cada olhar venusto?
Perfídias só em cada humano seio?

Acaso as almas poderei sem custo
Ver, perspícuo e melhor, só quando odeio?
E é preciso odiar para ser justo?!



(Raimundo Correia)